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30 de set. de 2010

Tia Didi e seus sonhos

Tia Didi (Vicentina Borges DE MENEZES) me ligou dizendo que tinha sonhado que vovô Levy DE MENEZES. Ele disse, no sonho, que ia abraçá-la no dia do aniversário dela.  Rimos, brincamos, nos divertimos, mandei lembranças pro lado de lá, o aniversário passou e ela não morreu. Rimos de novo. Telefonei: E aí? Não morreu?
Esquecemos o fato e no ano seguinte no dia do aniversário dela, dia 2 de fevereiro, ela morreu.

21 de set. de 2010

Mensagem para Sandra



Quem sabe um dia eu viro Isabel Allende.
Vc vê quantas versões existem para os fatos?
Glorinha disse para Sandra: Tia Lourinha tinha um xodó especial pelo Juninho e pela Tânia, disso me lembro bem. Acho que eu ficava com ciúmes, porque eu admirava a vovó Adila, seu bandolim e suas histórias, mas sabia como toda criança sabe, que tia Lourinha gostava MUITO de mim.
Eu também tinha uma pontinha de ciúmes do meu pai com os sobrinhos.
Meu pai era super orgulhoso de vocês, mas vocês não davam muita bola pra mim e pra Rosana.
Lembro de irmos no seu mega-apartamento em Copacabana e vocês não saírem do quarto pra falar com a gente. Eu e Rosana éramos meninas do Grajaú, e com menos de dez anos. Molecas de soltar pipa na rua. Papai queria que nós fôssemos como vocês e como Márcia e Maria Ângela, as primas da Zona Sul.




Tânia tocava piano e fazia miniaturas de giz, você era (ainda é) linda, estudiosa. Saímos da casa imensa no Grajaú. Papai levou a gente pra morar em Ipanema, naquela casa de dois andares na Rua Prudente de Morais, que achei horrível, pequena e longe dos meus amigos (chorei muito), eu e minha irmã fomos para o mesmo dentista das filhas do tio Dirceu, para o mesmo colégio, Sacre Coeurde Marie. Papai queria que tocássemos acordeon. E que dançássemos na Enid Sauer (Isso não conseguiu). Claro que foi um desastre.



No Sacre Coeur eu era a única que usava "duas peças", e as freiras me esperavam na saída pra me convencerem a entregar a roupa de banho para Nossa Senhora. Quase conseguiram. Mas do ginásio em diante usei biquínis cada vez menores.
Lembro muito do casamento da Tânia com discurso do Ziraldo na igreja de vidro da Lagoa, como era moderna!!! Do nascimento da Apoena, com esse nome, como era moderno!!! Tânia era, pra mim, a modernidade!! E ainda tinha aquele cabelo e aquela cara de Brigite Bardot!!
Em algum lugar tenho uma foto da gente na Fazenda Boa Fé, em Teresópolis, quase todas "de toca" no cabelo (vou procurar).
E lembro do teu filho Fábio quando era bebê, lourinho de olhos azuis, a coisa mais linda.
E lembro que nas festas eram tantas as irmãs da tua mãe e tão parecidas umas com as outras que eu ficava muito confusa em nunca saber quem era quem. E as tias da tua mãe também eram parecidas e todas com a mesma voz e o mesmo jeito de falar, como se tivessem a mesma idade. Todas mulheres falantes e divertidas, nunca soube quantas. Lembro que tinha duas "Santinhas", é lembrança verdadeira ou imaginação minha?
Onde foi parar o bandolim da vovó e nossos acordeons?
A flauta transversa do nosso avô Antenor veio parar nas minhas mãos, achava interessante, era adolescente, pendurei na parede, depois, numa das mudanças, sem me dar conta, perdi.
Se fosse hoje, colocava numa redoma de vidro.


5 de set. de 2010

A firma e o poste



A FIRMA não é nome de filme. É como chamávamos a empresa de postes luminosos Vera Cruz Indústria e Comércio LTDA.
A FIRMA sustentou muita gente, magoou mais ainda, foi motivo de discórdia e de união entre a família Horta do Rio de Janeiro.
Como surgiu A FIRMA? Minha mãe, Cléa de Menezes Vasconcelos Horta, tinha duas irmãs: Helena e Didi. Minha mãe e Didi casaram-se no mesmo dia, respectivamente com Antenor e Antônio (os homens sempre começavam com a letra A). Cléa foi com Antenor para Belo Horizonte, onde eu nasci dez meses depois. E Didi e Antônio form para São Paulo, onde Antônio trabalhava.
Meu avô materno, Levy de Menezes, abriu a primeira FIRMA, cujo nome esqueci, e fabricava postes luminosos (esses com um anúncio redondo em cima e o nome da rua numa placa azul dos lados). Não só fabricava, alugava os espaços luminosos e fazia a manutenção. A prefeitura havia concedido a ele uma concessão, e ele estava com muito dinheiro.
Desesperado de saudade das filhas, convocou os genros a voltarem para o Rio, prometendo-lhes uma FIRMA igual à sua e empréstimo para que cada um construísse sua casa como quisesse. Assim sendo, Antônio e Antenor foram sócios na FIRMA Vera Cruz Indústria e Comércio Ltda.
Meu pai escolheu Vera Cruz por ser o nome do trem de passageiros de luxo entre 1950 e 1990, ligando Rio de Janeiro a Belo Horizonte.



Antônio, porém, não ficou muito tempo, e voltou para São Paulo, onde tinhas seus "negócios", e vendeu sua parte para Armando de Vasconcelos Horta, irmão de meu pai Antenor.
"A FIRMA", para nossa família, era como um ente, uma coisa com vida própria. Lá, trabalharam sobrinhos, tios, irmãs, amigos. Havia um séquito de vendedores comissionados, que sexta-feira aparecia na FIRMA em busca de "vales".
Quando meu avô morreu, minha mãe e suas irmãs herdaram a FIRMA de meu avô, mudaram o nome criativamente para FRATERLUX, e acabaram quebrando a cara, claro, inicialmente não sabiam sequer o que era CGC. Mas foram corajosas, trabalhadoras, fortes e incansáveis.
Portanto, houve um tempo em que meu pai e minha mãe eram concorrentes, uma vez que cada um tinha uma FIRMA. Disputavam as esquinas para fincarem um poste luminoso e venderem um anúncio. Ao final venderam a Fraterlux para o gerente, um homem estranho, chamado Seu Meireles.
Mas a Vera Cruz sobreviveu até que a prefeitura estabelecesse outro padrão e centralizasse em outra patota sua concessão de exploração e sinalização das vias públicas. Os postes da Vera Cruz representam o Rio de Janeiro pois foram durante muitos anos a marca da cidade. A Vera Cruz tinha concorrentes, poucos. Não chegava a meia dúzia.
Quando meu pai foi morar dois anos no Peru, quem nos sustentava era A FIRMA.
Quando cortavam a luz por falta de pagamento, quem fazia o gato de luz eram os empregados DA FIRMA.
Quando meu pai morreu, eu ia completar vinte e seis anos. Saímos da missa de sétimo dia e fomos direto para A FIRMA. Minha mãe decidiu que eu tomaria o lugar do meu pai representando-a e meus dois irmãos e no oitavo dia eu estava sentada na cadeira do meu pai, na FIRMA. Claro que foi um desastre. Eu era massa de manobra, boi de piranha.
Esse assunto não pode ser levado muito a sério nem detalhado porque A FIRMA tem babados fortes.
Convém ressaltar, como dizem os acadêmicos, que A FIRMA deu trabalho a muita gente na nossa roda. E que POSTE, na minha família, tem um significado completamente diferente de um mero poste em qualquer outra.
POSTE era o centro da FIRMA. Os postes nos alimentaram, nos fizeram inimigos.
Os nossos postes tinham luz, ficavam um pouco acima das cabeças, traziam os nomes das ruas e os números dos edifícios daquele quarteirão, iluminavam as ruas e tiveram um dia um ar de modernidade.
Por causa da FIRMA, meu irmão conhece todas as esquinas do Rio de Janeiro.
Os postes estão desaparecendo das ruas, mas permanecem nas fotografias, escondidos, nossos pedaços de memória.

1 de set. de 2010

Mensagem para Mônica

Mônica:
Penso quem terá o livro de poesias da tia Wanda? Certa vez, acho que quando publiquei meu primeiro livro, ela se interessou muito por mim, provavelmente por encontrar uma "igual" na família, poeta como ela. Ela passou a me ligar frequentemente, e o assunto era sempre parecido: Tem escrito? E a poesia? Um dia cheguei na casa da mamãe, na Rua Sá Ferreira, e tia Wanda e tio Gregório estavam na entrada, sentadinhos, arrumadinhos, cheirosos, me esperando. Não havia ninguém em casa, eu morava lá e eles tinham decidido ir me visitar.
Quem se interessava pelos meus poemas, quando eu era criança ainda, era o Seu Pastor, pai da tia Elita.
Quando tio Geraldo morreu (pelo que o Alexandre me contou), papai abriu a camisa, bateu no peito dizendo pra você, Roseana e Alexandre, : Aqui está o pai de vocês agora! Outro dia contei isso pra uma amiga e ela ficou com os olhos cheios dágua.
Meu pai era louco pelos sobrinhos. Marco Antônio era gênio! Nosso Einstein! Sempre passávamos as férias na casa da tia Neyde, até hoje tenho muitas fotos. Em BH eu namorei vários amigos do Marco Antônio e muito jogadores de basquete. Eu devia ter treze anos, lembro-me de algumas coisas. Papai era técnico do time do Fluminense, e namorei uns três do Rio de Janeiro, entre eles o irmão mais velho do Pedro Bial (Bialzinho), Alberto Bial. E em Minas o Paulinho Ranieri, que tinha uma Kombi!!! Os amigos do Marco Antônio que namorei foram o André Tenuta e o Roberto. E todos nas mesmas férias. rs.
Cantávamos, namorávamos, dançávamos, brincávamos de levitação, e muitas brincadeiras de salão (papai me ensinou muitas, aprendi até a fazer mágica!
Papai tocava gaita. Quem tocava flauta era nosso avô. Sei porque nunca vi meu pai tocar flauta e eu fiquei com a flauta de nosso avô. Infelizmente não sei onde foi para. E o bandolim da vovó? E o vilão da tia Célia? E o livro que nosso avô escreveu: Casa de Doidos? O livro da tia Wanda?
Bem, guardo numa gaveta meus livros, o livro da Tânia (Coração Fechado para Obras), do tio Dirceu (Capistrana da vida), o CD da Maíra (Processo de Feitura). Acho que vou montar um acervo intelectual-artístico da família para minha neta Isadora.
E a Elizabeth, onde foi parar?

5 de out. de 2009

Os postes e a FIRMA


A FIRMA não é nome de filme. É como chamávamos a empresa de postes luminosos Vera Cruz Indústria e Comércio LTDA.
A FIRMA sustentou muita gente, magoou mais ainda, foi motivo de discórdia e de união entre a família Horta do Rio de Janeiro.
Como surgiu A FIRMA? Minha mãe, Cléa de Menezes Vasconcelos Horta, tinha duas irmãs: Helena e Didi. Minha mãe e Didi casaram-se no mesmo dia, respectivamente com Antenor e Antônio (os homens sempre começavam com a letra A). Cléa foi com Antenor para Belo Horizonte, onde eu nasci dez meses depois. E Didi e Antônio form para São Paulo, onde Antônio trabalhava.
Meu avô materno, Levy de Menezes, abriu a primeira FIRMA, cujo nome esqueci, e fabricava postes luminosos (esses com um anúncio redondo em cima e o nome da rua numa placa azul dos lados). Não só fabricava, alugava os espaços luminosos e fazia a manutenção. A prefeitura havia concedido a ele uma concessão, e ele estava com muito dinheiro.
Desesperado de saudade das filhas, convocou os genros a voltarem para o Rio, prometendo-lhes uma FIRMA igual à sua e empréstimo para que cada um construísse sua casa como quisesse. Assim sendo, Antônio e Antenor foram sócios na FIRMA Vera Cruz Indústria e Comércio Ltda.
Meu pai escolheu Vera Cruz por ser o nome do trem de passageiros de luxo entre 1950 e 1990, ligando Rio de Janeiro a Belo Horizonte.



Antônio, porém, não ficou muito tempo, e voltou para São Paulo, onde tinhas seus "negócios", e vendeu sua parte para Armando de Vasconcelos Horta, irmão de meu pai Antenor.
"A FIRMA", para nossa família, era como um ente, uma coisa com vida própria. Lá, trabalharam sobrinhos, tios, irmãs, amigos. Havia um séquito de vendedores comissionados, que sexta-feira aparecia na FIRMA em busca de "vales".
Quando meu avô morreu, minha mãe e suas irmãs herdaram a FIRMA de meu avô, mudaram o nome criativamente para FRATERLUX, e acabaram quebrando a cara, claro, inicialmente não sabiam sequer o que era CGC. Mas foram corajosas, trabalhadoras, fortes e incansáveis.
Portanto, houve um tempo em que meu pai e minha mãe eram concorrentes, uma vez que cada um tinha uma FIRMA. Disputavam as esquinas para fincarem um poste luminoso e venderem um anúncio. Ao final venderam a Fraterlux para o gerente, um homem estranho, chamado Seu Meireles.
Mas a Vera Cruz sobreviveu até que a prefeitura estabelecesse outro padrão e centralizasse em outra patota sua concessão de exploração e sinalização das vias públicas. Os postes da Vera Cruz representam o Rio de Janeiro pois foram durante muitos anos a marca da cidade. A Vera Cruz tinha concorrentes, poucos. Não chegava a meia dúzia.
Quando meu pai foi morar dois anos no Peru, quem nos sustentava era A FIRMA.
Quando cortavam a luz por falta de pagamento, quem fazia o gato de luz eram os empregados DA FIRMA.
Quando meu pai morreu, eu ia completar vinte e seis anos. Saímos da missa de sétimo dia e fomos direto para A FIRMA. Minha mãe decidiu que eu tomaria o lugar do meu pai representando-a e meus dois irmãos e no oitavo dia eu estava sentada na cadeira do meu pai, na FIRMA. Claro que foi um desastre. Eu era massa de manobra, boi de piranha.
Esse assunto não pode ser levado muito a sério nem detalhado porque A FIRMA tem babados fortes.
Convém ressaltar, como dizem os acadêmicos, que A FIRMA deu trabalho a muita gente na nossa roda. E que POSTE, na minha família, tem um significado completamente diferente de um mero poste em qualquer outra.
POSTE era o centro da FIRMA. Os postes nos alimentaram, nos fizeram inimigos.
Os nossos postes tinham luz, ficavam um pouco acima das cabeças, traziam os nomes das ruas e os números dos edifícios daquele quarteirão, iluminavam as ruas e tiveram um dia um ar de modernidade.
Por causa da FIRMA, meu irmão conhece todas as esquinas do Rio de Janeiro.
Os postes estão desaparecendo das ruas, mas permanecem nas fotografias, escondidos, nossos pedaços de memória.